Atrás da porta

(Cristina Zarur)

A menina brinca sentada no chão do quarto. Ao seu lado o dragão verde de olhos vermelhos solta fogo pelo nariz. É um nariz enorme cheio de meleca e fumaça.
O dragão balança a cauda onde tem um chocalho amarrado. CHOC CHOC CHOC…. Ele pula muito, dá volta e mais voltas atrás da própria cauda.
De repente aparece a baleia Ernestina. É uma baleia rosa, pequenininha, de olhos arregalados, faminta. Ela está jogando charme, nadando em ziguezague e NHOQUE…………
Come o dragão, todinho, pés e escamas e até aquela cauda com gostinho de choc… chocolate.
Agora o dragão está lá dentro da barriga da Ernestina, fazendo cócegas. A barriga da baleia treme num terremoto engraçado de gelatina rosada.
Dentro do coração da baleia também mora uma paixão : um tubarão albino. Ele é amigo e não quer morder ninguém, só deseja dormir sossegado, feito anjo-do-mar.
Ernestina cospe água pela boca, uma água verde e salgada cheia de peixes: Linguado, namorado, peixe espada, peixe boi, um bando feliz. Os peixinhos nadam. A baleia com seu tremelique descansa num mar de preguiça. É a hora da sesta.
De cima da árvore o tigre malhado vê tudo, e fica morto de inveja, pois, quer mergulhar, quer furar ondas e pegar jacaré. Mas esse tigre, coitado, é todo desengonçado, não sabe bater as patas, não mexe com as mãos, não sabe nadar. Não pode ser peixe.
___Cuidado com a ondaaaaa!!!! grita a baleia, gritam os peixinhos.
É tarde, a onda engole o pobre tigre.
Morre o tigre.
A aranha que estava por perto não tem pena. Aracnídeo tem pêlo? Ou tem pele? Ela acha muita graça em ver um bichão daqueles de pernas pro ar engolindo tanta água. A aranha é poeta e adora rimar: garça—desgraça, mar e ar, rir & partir.
O tigre morto bóia até ficar roxo de raiva, uma raiva danada da aranha. Ora essa, rindo assim de mim, logo eu que sou tão malhado, ruge o tigre. Ele abre uns olhões e catapum… mata a aranha com a pata.
Morre a aranha.
(Um segundo de silêncio para a solenidade)
A menina, pega a aranha na mão e faz cafuné nela, tadinha, tadinha.
A baleia ri. Ri da aranha achatada. Ela ri tanto que fica com dor de barriga, a maior flatulência, ventania dentro do ventre. Não tem jeito essa Ernestina. Solta puns coloridos. São bolhas de arco-íris: vermelha, azul e verde. Mas, o último pum, o mais fedorento de todos, é o indigesto dragão verde.
Nessa hora a porta do quarto se abre, é a mãe da menina que chega.
___Chega de castigo! a mãe fala atravessando o quarto com passos firmes.
É um corre-corre danado, todo mundo querendo fugir.
Plaft, a mãe pisa na nadadeira de Ernestina. Puff puff, ela marcha sobre o peixinho azul. Ploc, esmaga o peixe dourado e o beta listrado (e era uma vez um peixe esbelto )
Snifffffff o peixinho vermelho-encardido chora escondido debaixo da cama.
____Pára mãe, pára. Você vai machucá-los! A menina grita.
Mas a mãe não vê ninguém. Ela cruza o quarto para pegar a filha encolhida num canto, junto do armário embutido. A pequena continua com a mão fechada. A aranha, escondida na concha da mão, não se mexe. Fica miúda, miudinha.
A mãe segura a garota no colo, enche-a de beijos. Mamãe te ama, florzinha, mamãe te adora. A menina não quer ser beijada, não agora que a mãe atrapalhou tudo. Ela fica zangada, quer escapulir. A mãe não pára com aqueles beijos lambidos, molhados.

O dragão está logo ali, atrás. Silencioso ele avança, boca aberta, as garras em pé. Só a menina vê, ouve, o barulhinho crescendo, dentro dele um ronque ronque de fome. O enorme dragão de olhos vermelhos bem atrás da mãe. A menina tapa a boca, e ri.

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